Corinthians / História / 1910 à 1912 - Nasce o Time do Povo

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1910 | 1911 | 1912

Por Victor Hugo Brizotto Garcia

1910

6 de agosto de 1910. Porto de Southampton, Inglaterra. Embarcava para o Brasil uma delegação de futebolistas britânicos formada por estudantes das famosas Universidades Oxford e Cambridge. Era o Corinthian Football Club.

Vinha ao Brasil a convite do Fluminense, do Rio de Janeiro, para uma série de jogos amistosos.

Fundado em 28 de setembro de 1882, o clube inglês era famoso por difundir o futebol com bons valores, buscando se preocupar menos com os resultados e mais com a postura coerente e íntegra diante do esporte. Sempre prezando pelo jogo limpo e pela ética dentro e fora de campo. Esse cavalheirismo fez com que o "Espírito Corintiano" ditasse as regras de contuda de seus atletas. Em norma dos princípios do desporto, o Corinthian retirava sempre um dos seus jogadores de campo, quando o adversário perdia um jogador por lesão ou porque o árbitro tinha dado ordem de expulsão a um dos jogadores. Mais curioso ainda: sempre que um pênálti era concedido ao Corinthian, o jogador encarregado de bater errava deliberadamente, pois considerava que o pênalti não era "digno de cavalheiros".

E os bons resultados se acumulavam, tornando o Corinthian um dos mais famosos clubes ingleses na época. Antes de sua vinda ao Brasil, o Corinthian já tinha feito quatro grandes excursões a outros continentes: África do Sul em 1897, 1903 e 1907; e América do Norte em 1906.

Antes de prosseguir, algumas curiosidades sobre o Corinthian: a camisa branca do Real Madrid foi inspirada no branco do Corinthian; a maior goleada sofrida pelo gigante Manchester United foi para o Corinthian, no segundo semestre de 1904: 11 a 3; Charles Miller, o pai do futebol brasileiro, jogou pelo Corinthian em um amistoso contra o seu time na Inglaterra, o Condado de Hampshire. O Corinthian venceu por 1 x 0; O Corinthian teve diversas oportunidades de se profissionalizar e deixar de ser um time amador mas nunca o fez, pois isso faria com que o clube abrisse mão de seus valores;

Mas voltando para 1910... na então Capital do Brasil, onde desembarcaram no dia 21 de agosto, três goleadas: 10 x 1 contra o Fluminense; 8 x 1 contra um Combinado Carioca; e 5 x 2 sobre um Combinado Brasileiro.

Depois dos jogos no Rio (e de jantares, festas, passeios e eventos onde foram mimados e homenageados), vieram para São Paulo, onde chegaram na manhã do dia 30 de agosto para outros três jogos (e mais homenagens): A. A. Palmeiras, Paulistano e São Paulo Athletic.

O escudo do Corinthian Team

Em 1910, o céu brilhava com a passagem do Cometa Halley, deixando a população em polvorosa. Em São Paulo não era diferente. As pessoas se reuniam nas ruas à noite para ver o astro cruzar o céu.

Mas o cometa e a vinda do clube inglês não eram as únicas novidades lá pelos lados do Bom Retiro naquele ano. Corria a notícia de que cinco rapazes estavam se reunindo para fundar um clube de futebol somente de operários, visto que o futebol era um esporte de elite naquela época.

Os rapazes se encontravam na barbearia de Salvador Bataglia, que concordou que eles se reunissem ali.

E aqui voltamos ao Corinthian inglês. No primeiro jogo em São Paulo, 31 de agosto, contra o A. A. Palmeiras, um belo futebol e vitória por 2 a 0 no campo do Velódromo. Segundo o livro "Coração Corinthiano", de Lourenço Diaféria, um dos cinco rapazes, Antônio Pereira, assistiu ao jogo no Velódromo e ficou encantado com a qualidade do clube britânico. Na companhia de Antônio estavam Miguel Bataglia e Alexandre Magnani (que daqui a pouco entrarão com grande importância nessa história).

Antônio Pereira logo foi falar das proezas do Corinthian a seus amigos, que não conseguiram mais segurar a empolgação e marcaram uma reunião para a noite seguinte.

E assim, na noite de 1º de setembro, quinta-feira, por volta de 20:30, sob a luz de um lampião, na esquina da rua dos Italianos com a rua José Paulino, os jovens operários e sonhadores Antônio Pereira (que em 2021, graças a uma descoberta do Departamento Cultural do Corinthians, descobriu-se ser português (de Açores), Joaquim Ambrósio, Anselmo Corrêa, Carlos Silva e Raphael Perrone e mais outros oito participantes (Alexandre Magnami, Felipe Averna Valente, Miguel Sottile, João da Silva, Salvador Lopomo, João Morino, César Nunez e Miguel Bataglia) fundaram o clube com que tanto sonhavam.

Miguel Bataglia, conceituado alfaiate italiano radicado no Brasil, foi escolhido para ser o primeiro presidente (ficou apenas 15 dias no cargo, pois foi para Piracicaba. No seu lugar, tomou posse outro italiano: Alexandre Magnani).

Nos dias 2 e 4 de setembro, mais duas vitórias do Corinthian: 5 x 0 sobre o Paulistano e 8 x 2 sobre São Paulo Athletic. Ainda segundo o livro de Diaféria, os fundadores assistiram ao último jogo, realizado em um domingo.

E isso definitivamente influnciou na escolha do nome no novo clube, em reunião realizada no dia 5. Alguns foram sugeridos, como Santos Dumont ou Carlos Gomes, mas não tinham chegado a um acordo.

Até que Joaquim Ambrósio, pediu a palavra. Relembrou com emoção o belo futebol apresentado pelos ingleses e falou: "Eu sugiro que o nosso clube se chame Sport Club Corinthians Paulista". Aprovaçao geral! O nome de clube mais bonito do mundo estava definido.

Próxima pauta: uniforme. Decidiram-se pela camisa bege e calção branco. Porém, como após as lavagens o bege acabava desbotando, a cor da camisa foi substituída pelo branco por sugestão da lavadeira, por volta de 1914. O calção passou a ser preto.

Ver "Curiosidades - Uniforme".

Voltando para 1910, ao fim da reunião, Miguel Bataglia profetizou: "O Corinthians será o time do povo e o povo é quem vai fazer o time".

Miguel Bataglia, o primeiro presidente
Reprodução do jornal "O Comércio de São Paulo" noticiando a fundação do Timão

O clube estava formado, o nome já havia sido escolhido. Faltava o campo. Porém, para aqueles rapazes cheios de entusiasmo, nada era difícil. Voltaram então suas visitas para um terreno situado nos fundos de um lenheiro, ali mesmo no Bom Retiro, onde hoje se encontram localizadas as ruas Ribeiro de Lima, Prates e José Paulino. Como o dono do terreno era um lenheiro, o local ficou conhecido como "Campo do Lenheiro", considerada a primeira casa do Timão, onde jogou até 1912.

Esse terreno foi alugado por 30 mil réis por mês. Não era pouco para um clube que acabava de ser fundado, ainda mais repleto de operários. Mas aqueles jovens cheios de vontade, saberiam como arcar com aquela responsabilidade.

Ver "Curiosidades - As nossas "Casas".

O Corinthians teve uma grande ajuda dos jogadores do Botafogo, clube já famoso na várzea. Seus jogadores gostaram da idéia de time de operários do Corinthians e toparam jogar pelas duas equipes no começo da vida do Corinthians (algo comu naquela época). Inclusive, Neco e Amílcar, que se tornariam os primeiros grandes ídolos corinthianos, vieram do Botafogo.

Depois de comprar uma bola, que custou 6 mil réis e foi paga graças a uma vaquinha entre os moradores do bairro (segundo o livro "Haja coração - 100 anos de Timão", de Antonio Goulart, comprada na Rua São Caetano), e fazer o primeiro treino, o Corinthians marcou o primeiro jogo, contra o União Lapa, curiosamente fundado no mesmo dia do Corinthians.

O jogo foi marcado para o dia 10 de setembro de 1910. A primeira equipe do Timão jogou assim: Valente, Perrone e Atílio; Lepre, Alfredo e Police; João de Silva, Jorge Campbell, Luigi Fabbi, César Nunes e Joaquim Ambrósio.

O Corinthians perdeu por 1 a 0. Uma derrota com sabor de vitória.

Ver "Jogos Históricos - Corinthians 0 x 1 União da Lapa - O primeiro jogo".

Animado com o seu primeiro jogo oficial, o Corinthians marcou um novo amistoso. No dia 14 de setembro, jogando pela primeira vez no Campo do Lenheiro, o clube desafiou o Estrela Polar, temível time da várzea.

Mesmo jogando contra uma forte equipe, o Corinthians não se intimidou e ganhou o jogo por 2 a 0. Luigi Fabbi, italiano, foi o homem que marcou o primeiro gol da história do Corinthians. O segundo gol foi marcado por Jorge Campbell.

Ver "Jogos Históricos - Corinthians 2 x 0 Estrela Polar - A primeira vitória".

A primeira vitória do Corinthians
Ainda em 1910, a primeira goleada: 5 x 0 sobre a A.A Lapa, no dia 27 de setembro.

O último jogo do primeiro ano de vida foi contra o Morgan, no dia 8 de outubro, cujo resultado é desconhecido.

Uma observação importante: segundo o livro "1910 - O Time do Povo", de autoria do pesquisador e historiador do Memorial do Corinthians, Fernando Wanner, conta uma história com alguns detalhes diferentes: o terreno e a bola teriam sido adquiridos antes mesmo da fundaçao, visto que a idéia da criação de um clube vinha desde maio.

O documentário "Brothers in Football", que conta a história do Corinthian inglês e do Corinthians, conta que o próprio Charles Miller, tido como o pai do futebol brasileiro (e que jogou pelo menos uma partida pelo Corinthian em 1892, na Inglaterra) foi quem conversou com os fundadores e sugeriu o nome de Corinthians.

O Corinthian inglês ainda faria mais duas excursões ao Brasil, em 1913 e 1914, sendo que esta última foi interrompida por conta da Primeira Guerra Mundial.

Ver "Corinthiosidades - Outras visitas do Corinthian inglês e o drama da Guerra

1911

Em 1911 o Corinthians enfrentou novamente o União Lapa, duas vezes, e se vingou de sua primeira derrota, com juros e correções: vitórias por 6 x 1 e 3 x 1.

No mesmo ano, o Corinthians realizou a sua primeira partida fora da cidade de São Paulo. No dia 17 de setembro, o Corinthians enfrentou a Ponte Preta, em Campinas, e venceu por 1 x 0 (nesse mesmo dia também venceu o seu xará campineiro por 3 x 1).

Aos poucos, o Timão passou a ficar popular e ser um dos grandes da várzea paulistana.

1912

Em 1912 há registros de apenas alguns jogos, alguns com o resultado não conhecido.

Contabilizando os resultados conhecidos, o Corinthians acumulou, desde a fundação, 20 vitórias, 1 empate e apenas 3 derrotas, ganhando a fama de "Galo da Várzea".

Nesse ano, aliás, o Corinthians conquistou a sua primeira taça. Mas não foi através do futebol. Em 29 de dezembro de 1912, em uma prova de pedetrianismo, o Corinthhians ganhou o troféu Unione Viaggiatori Italiani, por ser o clube que classificou o maior número de atletas em uma prova de 10 KM disputada no Parque Antarctica: João Collina (2º), André Lepre (3º) e Baptista Boni (5º).

A primeira taça da história do Timão
(Foto: Arquivo Victor Hugo)
Dali para frente, começariam os anos de glórias...

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2 comentários

Maria Eduarda Oliveira Gonçalves 19.05.2025 - 18:33
e legal ver o passado do corintians
Miguel S. Gomes 26.11.2024 - 10:43
Legal isso!!